(João Paulo Roque)
Existem muitas histórias de onde eu venho. Um lugar chamado Pici. Fica logo ali, na ribanceira da cidade. Lá existe de um tudo que você possa imaginar, das tradicionais “lavadeiras da beira da cacimba”, a grandes fábricas poluidoras de riacho: destruidoras de rios e de lavadeiras.
Os campos de futebol, outrora, já foram campos de guerra e campos de desova. Hoje são Planaltos. Lá jazem corpos mortos pelas polícias sob valas de sangue e barro. O mesmo barro que ergueu casas para seus inúmeros habitantes acolheu o sangue e o suor de tanta gente jogada a própria sorte.
O olhar da menina pestanejava sobre os umbrais. O mesmo olhar corroído pela dor da fome, do olhar do americano, do sexo insano, da mãe desesperada, do irmão com a mesma fome. Páira sob a paisagem um velho olhar.
Todos esse lugares existem por aí, “no por aí do Pici”. É assim que a gente se vê: todo dia tem noticia na TV: “mataram mais um” é só por dizer. Mas é no meio desse lugar brutalmente sensível que brotam “cantigas matinais”, poesias à revelia do tempo e das paixões. Ecoam as loas dos maracatus: um banquete de vida! Rasga a mortalha do cotidiano e se anuncia, presentifica: vamos as ruas com tambores e fitas. “Quem vai jogar, quem vai jogar?”
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