(João Paulo Roque)
Derepente a noite chega. O sereno entorpece meu cansaço. Eu sigo tentando entender o que se passa. Somente um olhar é capaz de me dizer o que há. Uma sófrega solidão nos teus olhos de menino. Mas e o deserto da rua não acalma esta tua imensidão vazia, urbana.? É talvez porque chegou mais cedo o inverno na capital. Os lares se agitam. Os avós lançam seus olhares esperanços para o passado sertão. Tão presente, quanto distante... tão seco, tão real essa nostalgia de um deserto-urbano-sertão que não cabe memórias retiscentes de um desejo assim, tão sereno. Ah, e a chuva! e a chuva! Vem trazendo Águas renovadas. Águas remotas. Águas saudades. Águas presentes. E essa sede que não passa! Quanto mais inverno, mais sede. E esses teus olhos tão úmidos de tristeza? Por que não recomeçar? botar o pé na estrada. Seguir alguma estrela mesmo que isso te leve a nada. Se o poeta já dizia: "há metafísica demais em não pensar em nada" que mal há num caminho que não te leve a nada. Provarás da mesma poética metafísica.
Um blog é um espaço virtualmente impresso no "infinito-particular" de cada um. Um canto meio escondido, meio amostrado onde se inscreve a vida!
Tuesday, September 25, 2007
Monday, September 03, 2007
CRÔNICA DO PICI
(João Paulo Roque)
Existem muitas histórias de onde eu venho. Um lugar chamado Pici. Fica logo ali, na ribanceira da cidade. Lá existe de um tudo que você possa imaginar, das tradicionais “lavadeiras da beira da cacimba”, a grandes fábricas poluidoras de riacho: destruidoras de rios e de lavadeiras.
Os campos de futebol, outrora, já foram campos de guerra e campos de desova. Hoje são Planaltos. Lá jazem corpos mortos pelas polícias sob valas de sangue e barro. O mesmo barro que ergueu casas para seus inúmeros habitantes acolheu o sangue e o suor de tanta gente jogada a própria sorte.
O olhar da menina pestanejava sobre os umbrais. O mesmo olhar corroído pela dor da fome, do olhar do americano, do sexo insano, da mãe desesperada, do irmão com a mesma fome. Páira sob a paisagem um velho olhar.
Todos esse lugares existem por aí, “no por aí do Pici”. É assim que a gente se vê: todo dia tem noticia na TV: “mataram mais um” é só por dizer. Mas é no meio desse lugar brutalmente sensível que brotam “cantigas matinais”, poesias à revelia do tempo e das paixões. Ecoam as loas dos maracatus: um banquete de vida! Rasga a mortalha do cotidiano e se anuncia, presentifica: vamos as ruas com tambores e fitas. “Quem vai jogar, quem vai jogar?”
Existem muitas histórias de onde eu venho. Um lugar chamado Pici. Fica logo ali, na ribanceira da cidade. Lá existe de um tudo que você possa imaginar, das tradicionais “lavadeiras da beira da cacimba”, a grandes fábricas poluidoras de riacho: destruidoras de rios e de lavadeiras.
Os campos de futebol, outrora, já foram campos de guerra e campos de desova. Hoje são Planaltos. Lá jazem corpos mortos pelas polícias sob valas de sangue e barro. O mesmo barro que ergueu casas para seus inúmeros habitantes acolheu o sangue e o suor de tanta gente jogada a própria sorte.
O olhar da menina pestanejava sobre os umbrais. O mesmo olhar corroído pela dor da fome, do olhar do americano, do sexo insano, da mãe desesperada, do irmão com a mesma fome. Páira sob a paisagem um velho olhar.
Todos esse lugares existem por aí, “no por aí do Pici”. É assim que a gente se vê: todo dia tem noticia na TV: “mataram mais um” é só por dizer. Mas é no meio desse lugar brutalmente sensível que brotam “cantigas matinais”, poesias à revelia do tempo e das paixões. Ecoam as loas dos maracatus: um banquete de vida! Rasga a mortalha do cotidiano e se anuncia, presentifica: vamos as ruas com tambores e fitas. “Quem vai jogar, quem vai jogar?”
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