Sunday, October 22, 2006

A imitação do Espelho

"Parece-me que algo neste espelho aspira à solidão". Você pode sentir os meus cabelos agora?. Eles hoje estão tão macios e crespos como nunca. Vou pegar um sorvete, sim? Exatamente! Aquele que costumávamos tomar escondidas, você ainda lembra? Eu já volto, espera aí! Não, não posso abrir a geladeira assim, descalça. É melhor pegar a chinela, minha vó sempre dizia isso pra mim. Mas tudo bem, não se preocupe eu cuido de você. Nunca deixarei ninguém saber que voce resolveu se esconder aí só pra ficar mais perto de mim. Você bem sabe que aqui nesta casa eles me tratam assim. Aliás, a você também né? Pelo menos quando estavas aqui para que todos a vissem. Agora estás aí só pra mim. É bem verdade que sinto um brilho mais forte no teu olhar, as doces lembranças da nossa infância. Você me contava suas brincadeiras e eu ficava horas ouvindo e rindo, era tudo uma grande brincadeira essa nossa vida de criança. Só você mesmo conseguia ser criança comigo. Lembra que aquele menino era um tremendo mala. De muito me valeu os seus toque aqui de frente ao espelho. O espertinho pensou que me fazia de besta. Mas teve momentos que foi pura magia. Aí eu senti que fui feliz e deixei, mas não foi com ele foi com você, sabe né?. Ainda bem que você me entende viu, se não, não estaria contando estas coisas. Que não são lá grandes coisas, na verdade, que nunca brincou fez isso, não é mesmo?. Eu adorava. Tinha a Nátália e a Clarice que eram ótimas, lembra. O Rodriguinho era o filho predileto. Também com aqueles olhinhos. Eu fui sua mãe uma vez, naquele de dia de chuva na cabana. Ele deitou a cabeça no peito, e de repete senti um frio na espinha, pedi pra afastar um pouquinho. Ele olhou pra mim com um sorriso maroto e disse; "estou com fome", e riu. A nossa brincadeira era assim, de puro prazer. Depois ficamos embaixo dos lençóis, o calor quente de suas narinas espalhavam os fios suados de meus cabos, o gosto úmido de sua língua passeava por entre meu pescoço e minha orelha. Seu corpo era macio como um travesseiro gostoso. Por isso nós sempre brincávamos de dormir juntos. A gente brincava escondido. Todos sabiam que nós brincávamos juntos, o que era escondido era exatamente o que acontecia dentro da cabana. Segredo de infancia. Voce já revelou algum segredo da sua infância? Pois é, nem eu! Esses segredos do prazer sempre ficam guardados porque eles nascem junto com os melhores sentimentos e fazem com que as pessoas sejam especiais pra gente. Voce me ensinou tão bem isso. Nunca mais tive vergonha de brincar de nada com ninguém. Outro dia, lembra que eu te contei, Natalia tornou-se melhor amiga, até hoje. Pena que não vem mais aqui. Se não daria um abraço daqueles nela, igualzinho na cabana. Ela tem um abraço aveludado, seu corpo é quente. Ela sabia também que quando a gente entrava na cabana, a gente queria ser mais, sentir mais, descobrir um toque, um cheiro, um gosto. Esses sentidos da infância tão cheios de significados. Agora são sombras esparsas na parede da memória, na imagem submersa desse espelho do tempo. Adeus, um dia eu volta te encontrar, enfim, foi bom te ver por aqui, volte sempre que quiser.

Saturday, October 21, 2006

ainda está meio escuro...

(ayalo)
talvez ela esteja chegando
de vagar, ao ponto certo
ao ponto de encontro
onde eu nao mais me encontro
onde eu nem sei qual´é
a direçao que devo tomar

talvez ela esteja chegando
só um poquinho mais leve
ou um tanto mais profunda
talvez ela me carregue
talvez eu me confunda
e atordoado me entregue

talvez ela esteja indo...